relatório cinzento

por Saulo Schmaedecke

Hoje, lá pelas 19h30, desde que conversei com uma amiga sobre a repentina ruína em seus negócios, minha mente não conseguiu mais separar as trevas que envolvem o campo da moda em Curitiba e no Brasil, e a isso dedico minha escrita . Até agora não consigo deixar de pensar na crueldade com que são arrancados os talentos locais para fora daqui. Frágeis laços com a própria terra que quando submetidos ao rigor da indústria são obrigados a quebrar.

A marca da minha amiga foi um sucesso, público eufórico pelas peças com recortes a laser e desejáveis nos tecidos nascidos em laboratórios que investem muita grana em pesquisa.

Grana é a única linguagem que o mundo inteiro parece entender.

Alguns pensadores acreditam que as personalidades são definidas no território em que as transações financeiras acontecem e até onde essas fronteiras econômicas definem as atitudes de uma nação.

Em moda estuda-se algo chamado comportamento.

Requer observação científica do indivíduo, seus hábitos, sua cultura e mais uns seiscentos etcéteras – o importante aqui é dizer que a coisa toda vai além dos panos que cobrem os corpos. Os objetos de estudo estão por todos os lugares, eles estão nas práticas políticas, na arte, na decisão de diversos profissionais sobre qual é o design mais adequado para o prato que leva a comida de todo santo dia, aí na sua geografia. Basicamente, podemos dizer que a moda como sistema compreende as séries de novidades que as civilizações adotam.

Todo dia é o dia do novo.

E nem o antigo escapa.

Há pouco tempo as informações passaram a fluir numa velocidade incessante, em aparelhos eletrônicos bem pequenos e às vezes muito inconvenientes. Ainda não aprendemos a administrar direito a brilhante ferramenta que a tecnologia concebeu. A internet foi capaz de desmanchar as barreiras entre os lugares em que de fato acontecem as novidades e o resto do mundo.

Nas bancas de revista, imagens coloridas e irreais impressas pela gráfica que fechou o melhor contrato, os olhos se cruzam em séries que vão de 1,99 à 19,90. Sabemos que a moda não é levada a sério, desde que Platão diferenciou a realidade e as aparências e “moda é pura superfície”. A insatisfação dos profissionais da moda é propagada aos ventos, um setor não respeitado no cenário nacional apesar de pertencer à programação mental de todo cidadão brasileiro.

Olhando o mapa, uma figura aparentemente estática, vejo que o Brasil tem um apego ao retrô e se comporta da mesma maneira em seus 500 e poucos anos: dando.

Como uma vadia.

Ó pátria amada!

Um gerúndio avassalador que expressa a paralisia de um país, dói dizer, gigante pela própria natureza. Consumida pelo indecente Custo-Brasil, a indústria têxtil faturou 67 bilhões de Dilmas em 2011, sete bilhões a mais que o ano anterior. No setor, estima-se o investimento de dois bilhões. Mesmo assim, é o segundo maior empregador da indústria de transformação.

Os grandes terrenos onde são construídas as fábricas de tecelagem empregam a vida, o tempo e a felicidade de mais ou menos oito milhões de brasileiros, direta ou indiretamente.

Muitos desses são jovens em seus primeiros empregos, recentemente formados por cursos técnicos profissionalizantes.

Nossa má-educação.

Situação lamentável.

Mas sujeita a alterações.

Depende de quanto repercutimos o escândalo.

(considere esse texto como a jaqueta de couro indispensável na vestimenta da sua rede social)

Bem, o discurso da moda se alastra pela grande mídia. Passa despercebido no meio da fórmula que mistura o novo corte de cabelo da apresentadora do noticiário sanguinolento ao roteiro tentador de novelas e suas propostas de estilos de vida cada vez mais próximos das ruas, do transporte coletivo e do bolso do consumidor.

Costureiras e alfaiates desvalorizados envelhecem e levam na aposentadoria o DNA de uma grife. Os poucos jovens que se dedicam ao chão de fábrica entram na complicada engrenagem entre o ensino e o mercado de trabalho e só conseguem reproduzir a anemia educacional, incapazes de formular pensamento e comunicação.

A importância da roupa é esquecida, pois ela é tão perecível quanto o tempo. Vale mais investir na cultura do carro, num camaro amarelo, na independência quitada em 68 parcelas. Vale investir num sonho de consumo que é tão simples e cabe numa palavra: mobilidade.

Dear Dilma, o que são oito milhões de brasileiros empregados para você? Só mais uma linha de uma grande tabela de exigências? Invista em grandes parcelas, pra você receber daqui uns vinte anos diversas cartas de cidadãos educados em seu governo.

Certamente algum deles costurou os tecidos que formam sua calcinha.

Que o Custo-Brasil se transforme num Custom-Brasil, uma plataforma econômica customizada, enriquecida pela colaboração entre amadores, profissionais e pesquisadores de um campo que é a vitrine do pensamento global.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s